JE SUIS MIGRANT

Eu não consigo passar incólume pelas tragédias do mundo. Nunca consegui. Eu não tenho estrutura psicológica para ver a fome, a dor, a miséria alheia sem que me afetem de forma praticamente pessoal. Choro, perco o sono, me estresso, tento imaginar soluções. Talvez eu seja muito passional, viva tudo muito a flor da pele. Mas não sei viver sem me preocupar pelo todo, pelo conjunto. Definitivamente eu não sei ser feliz sozinha! Posso ficar muito feliz por algo bom que aconteça a outras pessoas, mas não consigo ficar inteiramente feliz por algo de bom que aconteça só a mim.

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Quando saí do Brasil pela primeira vez, me vi conscientemente aliviada ao não ver mendigos e crianças nas ruas pedindo esmola. Mas depois sofri morando na Espanha na época da guerra da separação da Yugoslavia. Participei do grupo da Cruz Vermelha fazendo triagem pra ver para onde seriam enviados os refugiados – a Espanha foi dos países que mais recebeu imigrantes da Yugoslavia.

Me lembro ainda antes, ainda criança, de chorar à noite quando vi as atrocidades de Idi Amin Dada – acho que foi a primeira vez que tive consciência do que é a maldade em massa. Sofro com as atrocidades de Mugabe no Zimbabwe. Tenho pesadelos com o Boko Haram. Ruanda. A exterminação de indígenas. O Apartheid. Faixa de Gaza. As milícias. Jalisco. As guerras e genocídios com desculpas religiosas. O sequestro de mais de 200 meninas estudantes para ser escravas sexuais. Os traficantes com suas leis de superioridade. Malala. Betty Mahmoody. Ayaan Hirsi Ali. Tibetanos massacrados por chineses. Os curdos por Saddam Hussein. Al Qaeda. Timor Leste. Biko. Camboja. Maagreb. Haiti. Líbia. Eritreia.

Hoje, vejo os refugiados andando quilômetros com apenas uma mochila ou um saco de dormir. Gente com cara de pobre, de rico. Gente bem ou mal vestida. Gente igual a nós. Pessoas que tinham uma vida normal, digna, tendo que deixar tudo para trás para simplesmente sobreviver dos horrores de grupos terroristas assassinos cruéis como o Estado Islâmico. E sempre alguém usando os livros sagrados, Al Quoran, Bíblia, ou o que seja, como justificativa para seus atos cruéis!

Anteontem eu vi um menino deitado na beira da praia. Parecia sereno. Parecia que dormia. Nos braços do guarda, sem ler a legenda, ainda parecia um menino dormindo.

Ele estava morto. Náufrago de um dos tantos barcos que tentam cruzar o Mediterrâneo e o Adriático em busca de uma oportunidade de vida, só vida, sem importar muito a qualidade. Ele, com seus pais e irmão, tentavam fugir da morte pelas mãos de bárbaros genocidas e caíram no colo da morte de um mundo que lhes negou a esperança.

Ele está morto. Ele está morto. Ele está morto! E não há nada que a gente possa fazer para ignorar ou apagar aquela imagem das nossas mentes.

Então eu choro…

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