E AGORA, NALUH?

E arrancaram pedaços de mim com um bisturí preciso tentando arrancar o mal que ía me trazer a morte. Me cortaram, me deceparam, me deformaram para me salvar. Depois me envenenaram e outra vez, e outra, e outra… Me drogaram, intoxicaram, para me salvar.

Meus pelos e cabelos caíram. Minha pele nem parece mais minha. Meu paladar é outro. Meu corpo não parece nem meu. Sinto tudo diferente, como em uma dimensão ilusória. A vida segue “la fora” e eu não faço parte dela porque estou como que dentro de uma bolha onde os fatos e o tempo pertencessem a alguém diferente de mim mesma. Eu já não sou eu, não me conheço.

E ainda vão me cortar mais, medicar mais, tudo para fazer parecer que a minha vida e o meu corpo vão voltar próximos ao que eram antes. Meu cabelo vai crescer de novo. Minha pele vai voltar a se parecer ao que era. Meu paladar vai voltar a reconhecer os sabores que lhe eram familiares. Vou voltar ao meu mundo lá de fora…

Mas nunca mais as coisas vão voltar ao que eram, eu nunca mais vou ser quem eu era. Eu nem lembro mais como eu era!

Tudo mudou no momento em que eu senti debaixo dos meus dedos aquele calombo duro com bordas bem definidas. Naquela noite (22 de julho de 2009) eu soube que nada mais seria igual.

Eu gosto de mudanças e novidades, mas aquelas que são buscadas e escolhidas por mim. Gosto de controlar minha vida, decidir meu destino. Sempre fui a senhora do meu nariz! Mas de repente o câncer veio como um trem me atropelando e arrastando todo o meu mundo junto! Me senti sem chão, e ainda não consegui achá-lo – parece que estou flutuando ou pisando em chão de vidro que não sei se vai se firmar ou se quebrar ao meu peso. Me sinto em uma nave estacionada acima da superfície, onde coisas acontecem como em mundos paralelos.

E já faz tanto tempo que tudo isso começou… E tem tão pouco tempo para tudo o que já aconteceu! Mas o tempo para mim não é o mesmo tempo de quem está no mundo “real”. Eu como e durmo quando quero, ou posso. Como e durmo o quanto quero, ou consigo. Noite e dia existem apenas porque tento manter uma certa normalidade na minha, agora, louca vida.

E assim vou seguindo esperando a hora da próxima dose de um remédio, o momento de um exame ou terapia, o dia da próxima cirurgia.

O que eu mais espero? A hora disso tudo chegar ao fim e eu poder começar essa nova vida parecida à que eu tinha antes, mas totalmente diferente!

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